Uma “batalha virtual” vem sendo travada desde quinta-feira (15) para decidir o futuro da criptomoeda Bitcoin Cash (BCH), uma derivação do Bitcoin criada com o intuito de tornar a moeda mais utilizável no dia a dia. A moeda passa por reformulações periódicas, mas, desta vez, dois grupos divergem sobre o que deve ser modificado. Um dos grupos prometeu tentar forçar a rede a adotar a sua versão da moeda utilizando um “ataque de 51%”.

O Bitcoin, que estava cotado a US$ 6,3 mil na quarta-feira (14), baixou para US$ 5,3 mil em menos de 24 horas. A moeda segue por volta dos US$ 5,6 mil neste sábado (17). O Bitcoin Cash, a moeda que está em disputa, caiu de US$ 520 para US$ 400 e muitas das casas de câmbio (“exchanges”) de criptomoedas congelaram envios, recebimentos, depósitos e saques em Bitcoin Cash.

O “ataque de 51%” é uma fragilidade intencional do Bitcoin e da rede blockchain usada pelo Bitcoin. Nessa rede, as transações são incluídas em “blocos” que devem trazer uma solução para um problema matemático em um processo chamado de “mineração”. O desafio matemático existe para garantir que a somatória do poder de processamento dos participantes da rede decida, de maneira democrática, os “caminhos” do Bitcoin.

Porém, quando um só indivíduo ou grupo hegemônico possui mais que 51% de todo o poder de processamento que soluciona o cálculo exigido pelos blocos da rede, esse grupo tem força para determinar a maioria dos blocos válidos, criando a possibilidade do “ataque de 51%”.

Com essa capacidade, alguém poderia evitar a criação de blocos que não aderem a um determinado padrão, por exemplo. Mesmo que um bloco seja criado fora desse padrão por outras pessoas, o poder de processamento de 51% garante que, vez ou outra, dois blocos serão resolvidos em sequência por esse grupo controlador, isolando blocos criados por outras pessoas da rede.

Com isso, eles estariam ditando as regras da rede e também monopolizando as “recompensas de bloco” — as moedas fornecidas como “prêmio” a quem soluciona cada bloco.

Na rede do Bitcoin e seus derivados, cada bloco precisa referenciar o anterior. Quando muitos blocos são processados seguindo um certo padrão, a rede naturalmente se estabelece sobre esse “pilar”, ainda que, no futuro, o responsável pelo ataque de 51% não detenha mais esse poder.

Por causa da disputa, não se sabe se haverá apenas um Bitcoin Cash ou até se a moeda pode ficar dividida para sempre, passando a existir dois Bitcoin Cash. O desfecho pode demorar “semanas”, segundo a exchange Coinbase, uma das mais relevantes do mercado. A empresa não forneceu nenhuma previsão para reativar negociações em Bitcoin Cash.

ABC contra SV

Craig Wright, uma figura conhecida no mundo das criptomoedas por ter afirmado que era Satoshi Nakamoto, o criador do Bitcoin (uma alegação que ele depois desistiu de provar), promoveu uma versão do Bitcoin Cash denominada “BitcoinSV”. SV significa “Satoshi’s Vision” (“Visão do Satoshi”) e supostamente aproxima o Bitcoin Cash dos objetivos expostos no artigo que deu origem ao Bitcoin, criado pela figura de Satoshi Nakamoto. A identidade real de Nakamoto é desconhecida até hoje.

Wright conta com o apoio de Calvin Ayre, um bilionário do ramo de apostas on-line, dono do grupo de mineração Coingeek.

Do outro lado está o BitcoinABC, cujo desenvolvimento é liderado por Amaury Séchet. Séchet conta com o apoio de Roger Ver, um notório investidor em criptomoedas dono da Bitcoin.com, e Jihan Wu, cofundador da Bitmain, uma fabricante de equipamentos de mineração.

Poder de processamento destinado ao BitcoinABC teve 'pico' logo após a data marcada para o surgimento da moeda, enquanto BitcoinSV continuou constante — Foto: Coin DancePoder de processamento destinado ao BitcoinABC teve 'pico' logo após a data marcada para o surgimento da moeda, enquanto BitcoinSV continuou constante — Foto: Coin Dance

Poder de processamento destinado ao BitcoinABC teve ‘pico’ logo após a data marcada para o surgimento da moeda, enquanto BitcoinSV continuou constante — Foto: Coin Dance

Wright afirma que Séchet e seus apoiadores estão ditando as regras do Bitcoin e centralizando a administração da moeda com suas mudanças programadas no protocolo. Ele promete que o BitcoinSV não sofrerá novas modificações, exceto por uma mudança no tamanho do bloco que permite que o Bitcoin processe mais transações por minuto.

Apoiadores do BitcoinABC criticam Wright por estar tentando impor sua visão à comunidade e criando um racha que prejudica as moedas.

No campo técnico, há uma divergência sobre uma mudança conhecida como “CTOR”, que flexibiliza a ordem das transações dentro dos blocos, e da possibilidade de adicionar conexões externas com outras redes de criptomoedas. O BitcoinABC defende uma maior flexibilização no Bitcoin. Wright alega que as mudanças não trazem os benefícios desejados e que é preciso seguir a visão delineada por Satoshi Nakamoto.

O BitcoinABC chegou a abrir uma vantagem de 30 blocos na frente do SV. Essa vantagem caiu para 10 e, neste sábado, estava entre 15 e 20, de acordo com o site “Coin Dance“.

Guerra teria custo milionário

O processamento responsável por solucionar o cálculo matemático exigido pelos blocos de Bitcoin tem um alto custo de energia elétrica. Hoje, esses custos são pagos com as “recompensas do bloco” — as moedas que são distribuídas aos “mineradores” responsáveis por cada bloco.

Para disputar o Bitcoin Cash, parte do poder de processamento hoje direcionado ao Bitcoin original foi redirecionado para o Bitcoin Cash, especialmente para o BitcoinABC.

Porém, como o Bitcoin Cash vale menos de 1/10 do Bitcoin original, desviar esses recursos acarreta em perdas financeiras, já que o Bitcoin Cash não é nem mesmo capaz de cobrir os custos de energia elétrica desses equipamentos. Segundo a Coingeek, esse desvio pode estar custando US$ 14 milhões por dia aos apoiadores do BitcoinABC.

Caso a guerra se prolongue, Wright ameaçou “queimar” suas reservas em Bitcoin para conseguir financiar esses custos e chegou a dizer que o preço do Bitcoin poderia cair para US$ 1.000.

Por que tanto interesse no Bitcoin Cash?

O Bitcoin Cash é uma derivação do Bitcoin original. Ele difere do Bitcoin tradicional em certos pontos, principalmente no que se refere à capacidade de transações. Realisticamente, o Bitcoin é capaz de quatro ou cinco transações por segundo, o que torna a moeda inviável para aplicações globais.

O Bitcoin Cash foi criado em 2017 para resolver esse problema. Defensores acreditam que, com a possibilidade de adoção e uso real da moeda, o valor dela pode superar o valor do Bitcoin original, cujas limitações técnicas podem impedir a adoção da tecnologia para pagamentos cotidianos.

Embora existam propostas alternativas para esse problema que não envolvam a criação de outra “moeda” (sendo a Lightning Network a solução de maior destaque), ainda não foi possível colocar em prática nenhuma dessas soluções.

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